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Biografia

Texto de Edson Franco, Revista GUITAR PLAYER, Jan/98.

Filho de Big Jim e Martha Vaughan, Stevie Ray Vaughan nasceu no dia 3 de Outubro de 1954 em Dallas, Estado texano marcado pela caipirice e pelos poços de petróleo. Vaughan começou a tocar influenciado por Jimmie, seu irmão mais velho e integrante do célebre grupo The Fabulous Thunderbirds. Além da banda, o jovem Stevie invejava a coleção de discos do irmão que, entre outros, tinha trabalhos de Jimmy Reed, Albert King, B.B. King, Kenny Burrell, Albert Collins, Charlie Christian e Django Reinhardt.

Curiosamente, o primeiro instrumento que Stevie quis tocar era a bateria, mas não havia nenhuma em sua casa. Depois, veio a vontade de tocar saxofone, e Stevie chegou a experimentar o instrumento, mas o máximo que ele conseguiu produzir foram alguns grunhidos. Desobediente, em 1963 ele desrespeitou a ordem do irmão mais velho para que ficasse longe das suas guitarras. E foi assim,

às escondidas, que ele descobriu sua paixão pela guitarra e sua identidade com o blues.

Boa praça, Jimmie não ficou nervoso quando flagrou o irmão tocando uma de suas guitarras. Pelo contrário, ao ver o potencial do garoto, deu-lhe de presente uma Gibson Messenger, guitarra que foi logo substituída por uma Fender Broadcaster 1952, outro presente de de Jimmie.

Não se sabe ao certo se a verba veio de mesada ou de algum bico, mas em meados dos anos 60 Stevie comprou seu primeiro disco, um compacto com o hit instrumental "Wham", de Lonnie Mack. Foi desse disco - e de vários outro de Albert King - que Stevie começou a forjar seu estilo.

Entre as bandas que Stevie tocou durante a adolescência, a memória texana registrou os nomes Blackbird e Chantones. Em 1968, enquanto tocava com o Blackbird, Stevie comprou uma Gibson Les Paul Gold Top 1952. Ao deixar o Blackbird e entrar para o Chantones, o guitarrista passou a tocar com um amigo de escola chamado Tommy Shannon. Entre uma banda e outra, Stevie arrumava tempo para tocar baixo na banda Texas Storm, liderada por seu irmão mais velho.

Veio 1969. Influenciado pela força de Jimi Hendrix, Vaughan decidiu comprar sua primeira Stratocaster, que ele passou a usar enquanto fazia parte do grupo Cast of Thousands. Quem tiver alguns milhares de dólares para gastar e um talento de Indiana Jones pode tentar encontrar o disco A New Hi, coletânea de 1971 com bandas de Dallas. Nele há uma faixa do Cast of Thousands mostrando Stevie aos 16 anos.

Na primavera de 1972, Austin, a capital do Texas, era também a capital do blues no Estado. Jimmie foi pra lá, Johnny Winter estava no topo e, depois de concluir e abandonar o colégio e já com uma boa base blueseira, Stevie acompanhou o foco migratório e se mudou para a capital. Inicialmente, ele participou da banda Crackerjack, com Uncle Joe Turner na bateria e Tommy Shannon no baixo.


Quando esteve no Brasil para acompanhar o guitarrista Nuno Mindelis, Uncle Joe Turner me confidenciou o seguinte: "Talvez eu seja o único homem da história que tenha expulso Stevie Ray Vaughan de uma banda. Na época em que tocamos juntos, ele ainda não era o montro que acabou virando", disse o baterista sem revelar nenhuma ponta de arrependimento.

Naquele mesmo longínquo 1972, aconteceu o primeiro encontro de Stevie com um de seus maiores influenciadores, o guitarrista de blues Albert King. Três anos e meio mais tarde, o jovem guitarrista já dividia o palco da mitológica casa Antone's com o ídolo. Um crítico de jornal em Austin descreveu assim a noite em que SRV e King dividiram o palco: "Em determinado

Jimmie e Stevie
ponto, mr. King se afastou de Little Stevie e escondeu sua guitarra atrás das cortinas do palco, como se dissesse: 'Esse garotinho está assustando a minha guitarra'".

Na primavera de 1973, Stevie entrou para os Nightcrawlers, banda de rhythm and blues que contava com Drew Pennington na gaita e vocais, Keith Ferguson no baixo e Doyle Bramhall (futuro parceiro em diversas composições) na bateria.

Nesse mesmo ano, Stevie trocou a sua Strato 63 por uma 59, com o braço em pau-rosa. Estamos falando da "number 1", aquela Fender toda descascada e com as letras SRV grudadas no escudo. Foi a guitarra de Stevie até o fim trágico da carreira. Trágico também foi o fim do braço original da Fender 59. Ainda em 1973, antes de um show no Garden State Arts Center em Nova Jersey, um pedaço do cenário desabou sobre as guitarras de Stevie, partindo o braço da Strato 59 em dois.

Mudanças importantes aconteceram em 1975. Vaughan entrou para a banda Los Cobras - que, entre outros méritos, criou uma legião de seguidores fiéis em Austin e gravou um compacto com as faixas "Texas Clover" e "Other Days" - e deu início à sua carreira de cantor. Além disso, naquele ano Austin assistiu ao nascimento da banda The Fabulous Thunderbirds e da casa de blues e posterior gravadora Antone's.

Por volta do verão de 1977, Stevie deixou o covil do Los Cobras. Com o baterista Chris Layton, a vocalista Lou Ann Barton e o então baixista W.C. Clark, ele montou o grupo Triple Threat Revue. Com egos maiores que seus talentos músicais, Vaughan e Barton viviam às turras na banda. O guitarrista queria uma boa cantora, não uma estrela. A cantora queria um guitarrista que segurasse as pontas, não um virtuose que dividisse os olhares da platéia. Essas intrigas não impediram que em maio de 1979 Vaughan escalasse Barton para a primeira formação da banda Double Trouble, nome inspirado em uma composição de Otis Rush. Com a cantora o grupo fez apenas uma apresentação em Nova York. Foi catastrófica.

Embriagada, Barton jogou cerveja e brigou com as garçonetes do extinto clube Lone Star. Foi a gota d'água, ou de cerveja, para Stevie. Depois de muito pensar, ele montou em 1981 a Double Trouble com a formação que entrou para a história. Ele na guitarra, Chris Layton na bateria e Tommy Shannon no baixo. Foi nesta época que ele mudou seu nome artístico de Little Stevie para Stevie Ray.

Começou então a mágica sonora que as fronteiras texanas não conseguiram conter. A fama do grupo transbordou para fora do Estado e até dos EUA já no ano seguinte, quando os rapazes foram convocados para tocar no Festival de Jazz Montreaux, na Suíça.

Entre as diversas cabeças na platéia, uma se destacava. Era o cantor inglês David Bowie, que convidou SRV para tocar em algumas faixas do disco Let's Dance e abrir os shows da turnê decorrente do trabalho. Vaughan cumpriu a primeira parte do acordo. Não chegou a participar da turnê porque, além das pendengas monetárias, ele não podia dar entrevistas falando de seu trabalho com o Double Trouble. Só estava autorizado a responder perguntas sobre as gravações que fizera com Bowie.

Com o orgulho ferido, ele voltou para o Texas com pouco dinheiro, mas com o respeito dos amigos texanos. Em 1983 veio o primeiro disco, Texas Flood. Era o big bang de um movimento que até hoje vem gerando frutos quando o assunto é blues feito por branco.

Para chegar a tanto, SRV exibia já no primeiro disco uma fusão desequilibrada dos estilos de Albert King, B.B. King, Otis Rush, T-Bone Walker, Buddy Guy, Eric Clapton, Albert Collins e, acima de tudo, Jimi Hendrix. Deste último, Vaughan copiou a energia, um jeito de dominar a guitarra como quem quisesse espancá-la em um primeiro momento, fazê-la gritar no segundo e sussurrar no final. E esse é o apelo que SRV exerce sobre a geração de garotos brancos que, em vez de enveredar pela batida trilha do rock, decidiu mergulhar de cabeça no blues.

No ano e disco seguintes (Couldn't Stand The Weather), Stevie já era o consumado deus da guitarra e do blues texanos. O trabalho marcou também a estréia de Stevie em vídeo, o que proporcionou-lhe uma tímida, porém surpreendente, exposição na MTV. Por fim, o disco deixou claro que Vaughan era blueseiro, mas tinha a fúria de Hendrix nos dedos. Prova cabal é a versão de "Voodoo Chile" registrada no álbum.

Em 1985 a sopa sonora da Double Trouble foi engrossada com o órgão de Reese Wynans, que proporcionou o som mais amplo e consistente registrado nas faixas de Soul to Soul, trabalho que rendeu um disco de platina à banda.

Se, nos discos e palcos, a vida de Stevie ia de vento em popa, fora deles o guitarrista estava submergindo. Quando não estava com a guitarra nas mãos, tudo que ele segurava era uma nota de dólar enrolada e um espelhinho com montanhas de cocaína.

O pior ainda estava por vir e aconteceu em Londres. Corriam os primeiros dias de outubro de 1986, e Stevie desmaiou no palco durante a apresentação. Ele ligou para a casa da família em Dallas e pediu socorro para a mãe. "Por favor, me ajude. Estou em algum lugar na Europa e estou passando muito mal", disse ele ao telefone.

Dias depois, Stevie voltou para os EUA e, em 17 de outubro, ele se internou num centro de desintoxicação em Marietta, Geórgia, onde permaneceu até 31 de novembro. Passou o ano de 87 inteiro combatendo também o alcoolismo e seguindo o programa de 12 passos dos Alcoólatras Anônimos.


Quando 1988 chegou, Stevie já estava sóbrio e de volta à estrada. O resultado da saída do fundo do poço está registrado em In Step, sua obra-prima. Ganhou o Grammy de melhor disco de blues contemporâneo.

Estava lançada a mística que cresceu ainda mais com o acidente de helicóptero que pôs fim a uma das mais brilhantes carreiras de um guitarrista de blues. Kenny Wayne Shepherd, Monster Mike Welch e Jonny Lang são apenas alguns exemplos de bebês que nasceram dos destroços daquele acidente.

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